Por ACésarVeiga*

Imagem: Divulgação

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No centro de Porto Alegre quando cruzava na sinaleira para pedestres em movimentada avenida,
escutei o “berro” de um jovem transeunte:
– Corre vovô, olha a carro!
 
Fiquei arrasado, não pelo fato de ter ouvido a palavra “vovô”, mas sim pelo sinal que logo ficou vermelho, e até então estava no meio do caminho.
(graças ao “mundo espiritual”, e ao motorista do veículo bem próximo que desacelerou, cheguei são e salvo – pelo menos desta vez -, do outro lado da rua)
 
Fiquei triste com o desempenho atlético detectado e fui fazer queixa a quem é familiar desta “diagonal” da mobilidade urbana. Sabem o que ele disse?
– César, você atravessou o semáforo a uma velocidade média próxima dos 3,0 km/h. Aconselho entrar para uma hidroginástica para melhorar seu desempenho atlético urgentemente.
(achei que o “entendido” estava moderando seu discurso com palavras agradáveis – para não contundir minha “autoestima”)
 
Como não estava certo da clareza da sua intenção tasquei outra pergunta:
– Da onde você tirou este valor de velocidade?

Ele retrucou:
– Existe um padrão na velocidade média de caminhar dos idosos – como você -, que é de aproximadamente 4,0 km/h nos semáforos.
 
Mas este valor foi disponibilizado “por quem”? – indaguei.
 
Não foi “por quem”, o fator é resultado de pesquisas e estudos do órgão responsável – replicou.
 
Então o estudo foi baseado em indivíduos gigantes? – já sem paciência questionei.
(cabe enfatizar que sou bastante calmo, mas vejo que são as pessoas que gostam de irritar)
 
O nosso amigo não soube responder e assim saiu de cena com a titulação de “o bode expiatório”.
 
OBS 01: “bode expiatório” é uma expressão usada para definir uma pessoa sobre a qual recaem as culpas alheias ou é usada quando alguém que é acusado de um delito que não fez, ou que não foi o idealizador.
 
Como “entendimento” é minha intenção,
gostaria de fazer parte de algum estudo envolvendo este tema, pois seriam diversos os questionamentos que ofereceria aos especialistas. Por exemplo:
 
a) Então a cidade não é constituída por idosos e sim tão somente por indivíduos adultos, jovens, ou gigantes?
(será que limitar uma velocidade alta de travessia para os idosos configura um artifício para mantê-los confinados em casa?)
 
OBS 02: deduzi que o valor da velocidade pode estar insinuando, caso o idoso não atingir, que o motivo pode configurar uma situação no qual “ele” está perdendo a autonomia e a qualidade de vida.
(então realmente concordo que neste caso fique em casa, no parente ou na clínica)
 
b) Este padrão de valor da velocidade média no caminhar do idoso foi fundamentado em relação à quais parâmetros?
 
OBS 03: “jamais” gostaria de ouvir que os dados estão alicerçados na velocidade de locomoção dos  idosos em cidades no exterior,
pois tenho um vizinho nascido na Alemanha de 63 anos com 1m98cm de altura e outro descendente de japoneses de 70 anos com 1m53cm.
(um caminha como “guepardo” e o outro igual a “lesma”)
 
c) O tempo do semáforo para as determinações, leva em consideração somente quando está verde ou o piscar do vermelho foi computado?
 
E pensando nítido e luminoso posso dizer que o aumento no tempo dos semáforos traz outras boas consequências…
…tal à melhora da autonomia e da mobilidade da população idosa, como também oportuniza redução de riscos de atropelamentos.
 
Alguém pode querer saber:
– E o impacto no trânsito com a elevação do tempo nos semáforos?
A resposta será “sim ocorrerá” se nada for feito conjuntamente…
 
…mudar a “velocidade limite local” para os veículos, por exemplo, ou utilizar o “semáforo inteligente”, em que o idoso insere um cartão num dispositivo eletrônico para determinar, que precisará de mais tempo para atravessar a rua, pode ser um bom coadjuvante.
 
OBS 04: o mesmo também vale para outras pessoas com dificuldade de locomoção como cadeirantes, pessoas com deficiência visual ou auditiva, pessoas com nanismo, grávidas, obesos, e pessoas com crianças pequenas, por exemplo.
(são soluções que não impactam tanto o trânsito e criam um processo interessante de inclusão social)
 
OBS 05: “nanismo” – condição genética que diminui a altura média de um indivíduo.
 
Assim sendo fui procurar minha geriatra que recomendou um fisioterapeuta…
(isso, para não permanecer assistindo a tudo indiferente, bestializado)
 
Por causa da perda da força muscular é natural que o idoso demore mais para atravessar a rua ou subir escadas…
…e quando somado ao nervosismo do trânsito, aos motoristas impacientes buzinando para apressá-los, o idoso ficará nervoso, demorando ainda mais para atravessar ou até ocasionando “tombos” – explicou a fisioterapeuta.
 
Uma dica é que quando um idoso ou uma pessoa com deficiência para locomoção estiver atravessando a rua, que os demais pedestres e motoristas tenham paciência, respeitando o tempo e a mobilidade de cada um.
(para assim virar aquele cidadão, com C maiúsculo)
 
OBS 06: aos pensadores independentes – que são os inovadores da sociedade -, peço auxílio e que respondam:
 – Quais os critérios que determinam o tempo dos semáforos nas vias urbanas brasileiras?
 
 Bem, deixo um abraço semafórico a você…
(e que este tenha “tempo” suficiente para a travessia de todos, é óbvio!) 

*ACésarVeiga é consultor na área de educação para o trânsito em Porto Alegre-RS e escreve o blog Pergunta de Aluno.